O jogo de videogame chamado Final Fantasy foi lançado em 1987 quando eu tinha apenas 5 anos de idade. Tem este nome pois o seu diretor Hironobu Sakaguchi fez o jogo do jeito que gostaria e se as vendas deste jogo fossem ruins, seria o primeiro e último a ser feito pela sua produtora. O jogo foi um sucesso! E hoje, quase 40 anos depois, a franquia tem inúmeros jogos e personagens que já fizeram parte do universo pop do mundo como um todo.

O primeiro que joguei foi o VI (Não me pergunte o porquê, mas é convencionado a se escrever os títulos numerados com algarismos romanos) e até hoje, meu favorito. Nunca fui uma criança jogadora de bola, atleta ou popular na escola. Sempre fui um nerd quando este termo ainda era pejorativo. Me lembro de jogar Final Fantasy VII em locadoras, o VIII com meu primo, o X foi dado a mim pela minha recém esposa como presente de aniversário, mas no XV, que saiu em 2016, é onde começou uma outra jornada.

Magic the Gathering é um jogo de cartas criado há pouco mais de 30 anos por Richard Garfield e até hoje, jogado no mundo todo. Tem seu universo próprio, regras que nem eu entendo muito bem, mas de um tempo para cá, Magic começou a fazer colaborações com outras franquias (que eles chamavam de Universe Beyond), expandindo um pouco a marca para pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar do jogo.

Eu, como nerd, conheci Magic há muito tempo, tentei jogar algumas vezes, mas nunca fui para frente. Meu filho sempre gostou de jogar coisas comigo, ludo, dama, escolha. Em 2018 em uma conferência nerd (fui em duas na vida), vi um stand de Magic em que eles não apenas ensinavam a jogar, mas davam um baralho de boas-vindas para quem fosse ao estande. Estava vazio, fui, aprendi o básico e pedi se seria possível eu ganhar mais um baralho para jogar com meu filho (já, já eu o apresento), eles gentilmente deram, então voltei e ensinei Magic para ele. E até hoje, é seu passatempo favorito. Sabe a loucura que você vê alguns com cartas Pokémon? Nunca foi o caso dele, pois ele queria jogar, não colecionar. E ainda hoje, jogo quando posso com ele algumas partidas quando ele volta da escola.

Meu filho nasceu em 2008 e como todo o filho, a tendência é imitar o pai. Apesar de tentar o estimular aos esportes e como o pai nunca foi dado a isso, o estímulo só vai até um ponto sem o exemplo. Ele não curte futebol, é mais reservado e, como o pai, gosta de atividades indoor e seguiu para ser um nerd também, sendo que hoje, não soa mais tão ruim. Sempre procurei algo para fazermos juntos e até hoje, gosto de jogar videogame quando posso. Ele sempre assistiu, e assiste, até hoje comigo. Na verdade, hoje eu o assisto jogar muitas coisas. Alguns jogos, inclusive, eu não terminei, pois os acompanhei através dele. E, comparando idade com idade, meu filho é um jogador muito mais habilidoso do que eu fui e, com certeza, do que sou hoje. Sem contar o óbvio: começamos a jogar muitas coisas juntos e fazemos isso até hoje.

Mas porque destaquei no início do texto Final Fantasy e Magic? Em 2016, enquanto jogava Final Fantasy XV, ele tinha um minigame de pesca dentro dele. Meu filho, ao me ver jogar, pedia para jogar aquele Minigame e se tornou incrivelmente bom! Tanto que tenho até hoje, a foto dele com o controle na mão, onde ele pescou o peixe lendário do jogo. Em 2020, ele jogou seu primeiro Final Fantasy, o remake do VII que foi lançado. Na época, com 10 anos, ele achou algumas partes difíceis, não me lembro se ele conseguiu terminar naquele tempo, mas sei que, eventualmente, ele terminou. Depois de algum tempo ele pediu para jogar o XV, aquele mesmo que ele só jogava o modo pesca. E ele foi até o fim. Ali, assim como o pai com o VI, surgiu um fã de Final Fantasy!

A empresa que faz Magic anuncia, com certa antecedência, os produtos que serão lançados e então em um ano eles anunciaram que sairia uma coleção totalmente baseada em Final Fantasy. Meu filho nunca foi um garoto “pidão” de brinquedos ou algo do tipo, mas quando anunciou esta coleção, eu perguntei se ele queria algo de presente e ele respondeu: “Pai, eu acredito que esta coleção de Magic vai ser cara, eu não quero nada de presente até chegar esta coleção para que, se der, possamos comprar pelo menos uma caixa.” Aquilo me impressionou! Para um adolescente, há um grau de restrição até grande.

A coleção saiu e, com a ajuda da vovó e da titia, consegui comprar a caixa para ele. Ele passou um tempo em Fortaleza “estagiando”, e eu lhe mandei fotos quando o pacote chegou aqui em casa. Prontamente, ele perguntou se eu iria esperá-lo para abrir as caixas. Eu disse que, obviamente, sim — afinal, o presente era dele.

E foi ali que ele disse: “Mas eu não quero apenas abrir, eu quero abrir com você, pai”.

Ele chegou de Fortaleza e, na mesma manhã, mesmo cansado da viagem e com visitas em casa, vi lampejos daquele pequeno garoto — agora, porém, com barba. Sentamos no chão da sala e, acompanhados de suas irmãs, abrimos os pacotes de cartas. Mais tarde, organizamos tudo em ordem, colocamos as cartas em uma pasta própria para guardá-las, anotamos as que não vieram e estabelecemos como meta comprá-las aos poucos, até completar a coleção.
(Apenas uma nota para algum nerd como eu que venha a ler este texto: ao falar em “todas as cartas”, não me refiro a todas as ilustrações, mas sim a cada carta em si — o que já envolve um valor que acredito que nunca terei.)

Hoje, quase um ano depois, chega a última carta da coleção principal e a pasta está finalmente completa: 312 cartas. Chegamos ao final de um objetivo que traçamos juntos e completamos juntos. Enquanto abríamos os pacotes ou cada carta que chegava, sempre era uma oportunidade de falar um pouco dos jogos antigos, de comentar os personagens, dizer de quais eu gostava – assim como ele, que agora já jogou alguns. Meu presente de aniversário este ano? Comprei “para mim” decks de Final Fantasy para poder jogar com ele. Talvez seja a nostalgia de um pai se preparando para ver o filho sair de casa, mas, como falei para minha esposa, o meu presente não são os decks, e sim poder passar mais tempo com meu filho, fazendo algo de que gostamos, juntos.

Eu confesso que a história acima não tem nada de particularmente emocionante, aventureiro ou até mesmo interessante. Mas por que estou aqui contando ela? Paul C. Vitz escreveu um livro chamado “Faith of the Fatherless – The Psychology of Atheism”(Fé dos sem pai – A psicologia do ateísmo, em tradução livre). Em resumo: ele tenta mostrar o impacto da ausência e da presença dos pais, em particular, na vida de notórios pensadores, começando por Freud. Podemos discordar da hipótese levantada, mas é um livro bem interessante em mostrar o problema e o impacto que um pai faz na vida de uma pessoa.

Como pastor hoje, observo, em particular, os mais jovens na igreja. Se me permite fazer uma paráfrase de um versículo bíblico de que gosto muito, no Evangelho de Mateus 9:36: “E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como filhos que não têm pai”. (O destaque é uma mudança intencional minha; o versículo diz “como ovelhas que não têm pastor”.) Essa é a realidade de muitos jovens — especialmente entre os homens — em nossa igreja. O pai é uma figura ausente, distante. Entenda: não estou chamando essas pessoas de más ou falhas. Sei que muitos pais são, sim, provedores de seus lares, vivem de forma honesta e são exemplares em muitas coisas para seus filhos. Ainda assim, existe uma desconexão com eles quando chega a adolescência.

Algumas coisas da infância ainda permanecem ali; os estímulos dados continuam a aparecer. No entanto, nossos filhos andam cada vez mais perdidos e cansados e, por isso, acabam ouvindo orientações de quem não tem absolutamente nada a oferecer. Enquanto isso, ficamos imóveis, sem orientá-los quanto aos fracassos e dissabores da vida que enfrentarão — e, mais importante, sem lhes mostrar que estaremos ao lado deles nesses momentos. Também não os preparamos para serem bons líderes de seus lares, nem os orientamos sobre como ler e manusear a Bíblia — talvez porque nós mesmos não façamos isso. Não temos momentos de lazer juntos, pois gostamos de coisas completamente distintas, sem sobreposição de interesses nem disposição, de ambas as partes, para conhecer ou aprender algo novo.

Vivemos hoje com os rostos mergulhados em nossos celulares e passamos a tratar isso como o novo normal.

Toda a história acima — de como Final Fantasy e Magic nos unem, a mim e ao meu filho — é justamente o ponto de questionamento para a minha própria vida. Se consegui ensinar ao meu filho a gostar de personagens fictícios e a aprender a jogar um jogo de cartas relativamente complexo, será que consigo ensiná-lo a se importar com Cristo mais do que com qualquer outra coisa? Será que falo com ele sobre a eternidade e as consequências que o pecado pode trazer à sua vida? Procuro mostrar a ele as minhas falhas — inclusive no casamento — para que ele possa ser um marido melhor do que eu? Ensino o que ele deve observar em uma garota pela qual se interesse, para que possa, sendo da vontade de Deus, casar-se bem, como seu pai se casou? Mostro a ele como uma mulher deve ser tratada?

Demonstro preocupação com a sua alma, com aquilo que ele vê, mais do que com a faculdade que ele vai escolher? Converso com ele sobre suas preocupações, anseios, desejos e planos para o futuro, ou apenas espero que ele seja um bom profissional, já que seu pai lhe proporcionou uma boa formação escolar?

As perguntas acima são apenas algumas de inúmeras que poderia fazer. Eu conduzi pelo exemplo estes dois fatores que falei no texto para com meu filho, mas e o restante? Tenho sido um bom exemplo para ele? Tenho sido um modelo de homem que meu filho almeja ser ou alguém a evitar? São perguntas que não gostamos muito de pensar nelas. Nos incomodam, queremos criar nossas desculpas e uma é a mais comum de todas: “Eu não tive isso quando tinha a idade dele.” Mostrando justamente o ponto do livro, o impacto que a vida de um pai pode ter na vida dos filhos e como, infelizmente, continuamos a provar este ponto.

Eu tenho um texto da Bíblia que eu gosto muito (sei que falo isso de quase todo o texto da Bíblia, mas este tenho um carinho particular). Mas este eu cheguei até a pedir para alguém fazer uma pintura para colocar no meu escritório. Ainda não encontrei alguém que faça e me recuso a fazer por IA. Inteligência Artificial nunca terá alma para entender Gênesis 22:6 e 8 que diz: “E tomou Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos…E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos. (ênfase adicionada)

Depois de muito tempo de espera, Abraão finalmente recebe seu filho, seu único filho. Deus o prova ao pedir que ele sacrifique Isaque. Nós só podemos imaginar o que é passar por algo assim. Entre tudo o que poderia ser destacado nessa incrível passagem, quero ressaltar apenas o que enfatizei acima: Abraão estava junto de seu filho na maior provação de ambos. Há uma ironia no texto: Isaque carregava a madeira sobre a qual seria colocado dali a pouco tempo, enquanto Abraão levava o fogo e o cutelo para a imolação.

O que se passava na mente de Abraão, só posso imaginar. Mas sei o que ele fez: permaneceu ao lado de seu filho, e juntos caminharam na certeza de que Deus proveria para si o cordeiro para o holocausto.

E como Deus proveu! Mandou Cristo a quem Deus não poupou (Romanos 8:32), para que agora salvo, eu, não apenas tenha um Pai Celeste que me provê a salvação e dignidade, mas um Pai que está sempre junto comigo, por onde quer que eu vá. Cristo e seu trabalho garantiu esta filiação para mim, para meu filho. Ele anda comigo, Ele anda com meu filho e nós andamos juntos!

Hoje, estou feliz por um projeto que comecei e terminei junto ao meu filho. Mas que a minha maior alegria seja, naquele glorioso dia, quando Cristo voltar em glória e, assim, o “ainda não” de seu trabalho se cumprir. Sei que estarei feliz por estar junto a Ele — e isso é mais do que suficiente e sempre será.

Mas hoje eu trabalho, oro e me esforço para que eu e meu filho estejamos juntos, diante de Deus. Essa nunca será uma “fantasia final”, pois será a realidade eterna — e como será mágica!

Em Cristo,

Pr. Léo

Post anterior
A vida é maior do que os números