Filtrar aquilo que os filhos assistem é uma obrigação de todo o pai. Uma obrigação que nos dias de hoje tem se tornado cada vez mais difícil, pois as mensagens são colocadas de formas sutis (ou nem tanto) e em número cada vez maior.

Entendo, ser impossível hoje, você deixar seu filho assistir a um filme sem você ter assistido antes, seja por coisas sutis como em Divertidamente(a ideia que sexualidade pode ser fluida e ainda não formada na cabeça de uma criança), seja por curtas como Segredos Mágicos que abertamente  mostra o relacionamento de um casal homossexual.

Assim, com a estreia do filme Luca, novo filme da Pixar, já fui assistir desconfiado pois o meu primeiro contato com o filme não foi no catálogo do Disney+, mas sim em uma reportagem sobre filmes com histórias ou personagens homossexuais. (Abro aqui uma rápida explicação: Me recuso a usar a sigla LGBTQIA+. Seja porque a sigla só aumenta para nomes que não conheço ou seja porque entendo ser uma maneira de suavizar e não mostrar com todas as letras (trocadilho intencional) o que está por trás deste movimento.)

Então, assisti ao filme sozinho para ver se de fato o era. E bem, para minha agradável surpresa, o que vi foi uma história muito bonita de amizade entre Luca e Alberto e mais a frente Giulia. Enquanto assistia, me questionei o porquê ou onde eles viram algum tipo de mensagem homossexual neste filme e forçando um pouco a mente, me lembrei.

O pastor Albert Mohler Jr, em seu excelente livro Desejo e Engano, publicado pela Editora Fiel, traz um capítulo com o título “O Fim da Amizade – Como a confusão sexual corrompeu a amizade entre homens.” Até hoje as palavras deste capítulo mexem comigo pois eu pude olhar para minha própria vida e ver o como eu fui atingido por esta confusão.  Quantas vezes não passei a tarde em casa de amigos jogando RPG, Mario Kart ou simplesmente jogando conversa fora (alguns até sem camisa) onde, sem cerimônias, dormíamos no sofá ou na cama ao lado, onde planejávamos excursões juntos, saíamos de ensaios da igreja para um fliperama e até por vezes, depois de um corujão na Lanhouse, andávamos no meio da rua achando que éramos os donos do mundo (ou uma banda de rock fracassada).

Fiz tudo isso, sem nenhuma confusão sexual, sem me envolver de forma romântica com nenhum destes homens, na época adolescentes, mas quando me peguei pensando em tudo isso que fiz acima e imaginando meu filho fazendo as exatas mesmas coisas que descrevi, eu mesmo me peguei pensando se não teria algo errado com ele e com seus amigos.

“Mas pastor os tempos são outros… No nosso tempo, as coisas eram mais simples, sem malícia.” Mas esse é o ponto! Sim, os tempos mudaram justamente porque nós deixamos; porque não lutamos contra e simplesmente fomos com a maré. Para nós hoje, histórias de amizade como Sam e Frodo como relatada no livro O Senhor dos Anéis, não é mais a história de um amigo disposto a ajudar um outro amigo a ir até as portas do inferno para carregar o seu fardo, apesar de pequeno. Hoje, vemos/assistimos isso e pensamos: “tem coisa ali…aquilo não tá certo…” O mesmo penso em que ler um livro como Ratos e Homens, muitos não pensariam que aquela camaradagem entre os personagens do livro não seria também algo a mais…

Não é sem agenda, que é justamente uma linda história de amizade como a de Davi e Jônatas como relatada em I Samuel 20 é justamente o texto em que tentam mostrar que o amor entre Davi e Jônatas tem “algo a mais”. Em particular o versículo 41 que retrata justamente a despedida destes dois amigos, o versículo nos diz:

Indo-se o rapaz, levantou-se Davi do lado do sul e prostrou-se rosto em terra três vezes; e beijaram-se um ao outro e choraram juntos; Davi, porém, muito mais.

                Confesso que não vou gastar tanto tempo em explicar o beijo como uma saudação cultural, vide passagens como I Pedro 5:14, onde o apóstolo ali, literalmente, ordena a igreja a se saudar com o ósculo(beijo) do amor; ou como não lembrar que a mais famosa traição da Bíblia, ou talvez da história, foi justamente protagonizada por esta saudação (Lc 22: 47)?

A ênfase é justamente a genuína tristeza de dois amigos que não poderiam mais se ver e se relacionar por um tempo, pois Davi fugia de Saul, pai de Jônatas, e Jônatas entendia ser Davi o rei de direito. E desobedecendo ao pai, mas obedecendo ao Senhor, salva e alerta Davi dos perigos que o espreitava. Uma amizade assim é valiosa, pois se Davi não tivesse Jônatas como amigo, ele provavelmente morreria pelas perseguições de Saul. A amizade de Jônatas foi um grande instrumento pelo qual Deus usou para salvar Davi e mostrar que ele não estava só.

Uma das mais fantásticas e melhores descrições de amizade se encontra em Eclesiastes 4: 9-12:

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho.
Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.”

                Acredito que você já tenha visto algum pastor pregando este texto em algum casamento (me encontro entre eles), contudo, o texto acima não se refere diretamente a casamento; afinal, estamos falando do mesmo homem que escreveu todo um livro da Bíblia a respeito (o livro de Cântico dos Cânticos). Aqui, ele está mostrando de forma muito prática os benefícios de um amigo ao seu lado, benefícios como:

1 – Enriquecer mutuamente, ajudar o outro nas labutas profissionais e até mesmo assistência em casos de necessidade;

2 – Socorro para os problemas da vida, ter alguém como suporte, como ombro e amparo para acudir em situações de perseguição, doença, luta contra o pecado, levantar e admoestar quando esta mesma luta contra o pecado está sendo perdida;

3 – Suporte para uma vida mais firme, um cordão de três pontas não quer dizer de três nós, mas sim que não é composto de um único fio, que por ser composto por vários ele é mais resistente para aguentar peso e suportar cargas maiores, no caso, lutar contra os inimigos e até vencer o frio.

São estes entre outros, os benefícios que uma amizade bíblica e santa vai trazer, e tais benefícios são impossíveis de serem atingidos sem a camaradagem, comunhão, abraços, lágrimas que uma verdadeira amizade traz, pois suporta os problemas lado a lado, e como diz o ditado “já viram muita coisa juntos.’

Para o cristão, isto tem uma conotação ainda maior, pois não somos apenas amigos, mas irmãos, partes de um mesmo corpo (I Co 12: 12), que sofremos juntos, lutamos juntos, choramos juntos, podemos até nos despedir nesta vida, mas certo que viveremos juntos por toda a Eternidade em Cristo.

Cristo disse para nós algo que deve ser gravado por todo crente em João 15:15:

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer.”

 

Cristo deu a vida por nós quando erámos ainda pecadores (Rm 5:8), inimigos dEle e de Sua vontade, mas por causa daquilo que Ele fez, do impossível que foi conquistado por e para nós, hoje temos o privilégio de sermos amigos deste Cristo, alguém que se você reler tudo o que disse até aqui, nos dá todos os benefícios da amizade: chorou por nós, morreu por nós, ressuscitou por nós.

Não há amigo ou maior demonstração de amizade. Tudo o que qualquer amigo pode fazer pelo outro, empalidece diante disto, pois Ele não fez por troca ou benefício pois nada tínhamos a oferecer.  Assim, podemos e devemos encorajar os nossos filhos, jovens, em particular homens, a serem bons amigos, para serem suporte, influenciar, lutar juntos, rir juntos, chorar juntos, como amigos e irmãos que agora temos o privilégio de ser. Para que tenham despedidas dolorosas, que sintam falta do ombro amigo e até das tardes de Mario kart, mas tenham sempre o amigo Cristo como amigo comum, pois assim eles sabem que de um jeito ainda mais glorioso, essas tardes voltarão.

Nós cristãos devemos nos orgulhar de nossas amizades. Mostrar que estas amizades não são baseadas em interesses egoístas ou românticos, mas uma consequência do que nosso grande amigo Cristo Jesus fez por nós. Assim, não tenhamos vergonha de nos identificar com nossos amigos, socorrer eles, se alegrar com eles, se divertir juntos, viajar juntos. O mundo já tirou muita coisa de nós como símbolos, palavras, expressões; não deixemos que tirem aquilo que devemos ter orgulho: de ser e ter amigos.

Em Cristo, nosso amigo,

Pr. Léo

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